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terça-feira, março 10, 2009

EM DESTAQUE NO PÚBLICO

Seja bem-vindo, apesar de...
Maria Antónia Palla

Esperamos que a legitimidade democrática se instaure em Angola e que esta ocupe o lugar que lhe cabe no mundo

Hoje chega a Lisboa o Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos.
A primeira coisa que queríamos sublinhar, quanto a esta visita de Estado feita a convite do seu homólogo português, é o Presidente de Angola nunca ter sido eleito, mas exercer essas funções há 30 anos. Mais: pelo caminho de uma eleição presidencial, parcialmente disputada mas não terminada (1992), ficou o cadáver do seu opositor Jonas Malheiro Savimbi cuja memória é útil, e justo, evocar nesta hora. Tanto mais quanto tem sido tão vilipendiada no que a essa eleição (e não só) diz respeito.

Jonas Savimbi, contrariamente ao que persistentemente se tem afirmado, por ignorância ou má fé, aceitou o resultado eleitoral, apesar de contestar a sua limpidez, e dispôs-se a disputar a segunda volta dessa eleição. O que se seguiu é sabido: milhares de apoiantes da UNITA, entre eles alguns dos principais dirigentes, foram massacrados em Luanda.
Mas este "pormenor", decisivo na nossa opinião, de tão repetidamente negado, desapareceu da "história". O Presidente José Eduardo dos Santos, legitimado ou não (na nossa opinião não!) pelo voto popular, representa a Angola de hoje. Um país a que nos unem tantos, e tão fortes, laços de afecto e de história. Um país tão rico de recursos naturais, e portanto de oportunidades económicas, mas tão profundamente desigual e assimétrico. Um país onde a esmagadora maioria da população vive em condições de miséria infra-humana, enquanto uma espaventosa nomenklatura desfruta, despudoradamente, dessa riqueza tão desigualmente repartida. Um país onde, todos o sabem mas muitos o calam, grassa a mais avassaladora e despudorada das corrupções. Em benefício de uma nomenklatura cleptocrática que domina, praticamente em exclusivo, o aparelho de Estado. Numa lógica que, em muitos aspectos, se confunde ainda com a lógica de partido único. Sistema, aliás, no qual o partido de José Eduardo dos Santos exerceu o poder durante a maioria dos 30 anos que já leva de presidência.

Claro que importa reconhecer que Angola representa para muitos portugueses que lá trabalham, e para muitas empresas portuguesas que lá estão, uma oportunidade maior de riqueza e prosperidade. Claro que é de justiça reconhecer que já não há em Angola muitos dos constrangimentos políticos às liberdades que durante tantos anos tolheram a vida pública daquele país independente. Até por via dos alinhamentos internacionais no quadro da desaparecida guerra fria. Que em Angola foi quente e, infelizmente, tragicamente sangrenta. Há também que reconhecer que, no exercício de um poder autocrático e tendencialmente totalitário, José Eduardo dos Santos e o seu partido revelaram uma esperteza, e até inteligência (por que não reconhecê-lo?), que pede meças a muito do que pudemos apreciar no cenário internacional dos últimos e desvairados anos. Nessa matéria, recorde-se apenas, e a título de exemplo, a clarividência astuta de José Eduardo dos Santos no cenário internacional bipolarizado que antecedeu a intervenção americana (Administração Bush) no Iraque, quando Angola ocupava um lugar no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Claro que José Eduardo dos Santos e o seu partido no poder beneficiam da complacência cúmplice, e não envergonhada, de tantos que em Portugal, e não só, são ou almejam ser seus parceiros de negócio(s). Uma complacência que fecha, ou desvia, os olhos da realidade de facto existente no terreno. No plano da igualdade de oportunidades entre os cidadãos e também as diversas forças políticas. No plano das opções estratégicas de desenvolvimento. No plano da boa e transparente governação. No plano das cumplicidades estratégicas e de poder, nomeadamente em termos regionais na África subsariana (veja-se o caso Mugabe).

Esclareça-se que exprimimos, com franqueza e frontalidade, a nossa posição. Em nome exclusivamente das nossas convicções e daquilo que consideramos a verdade dos factos, e da verdade histórica que importa sempre respeitar. A partir de uma posição de esquerda, que é, e sempre foi, a nossa. Imbuídos de um profundo respeito pela independência de Angola e dos angolanos. Pela qual, modesta mas activamente, nos batemos, antes de estar reconhecida. E numa lógica de amor àquela terra e àquele povo, a tantos títulos, irmão de facto de Portugal e dos portugueses. Com a limpidez de alma de quem não quer (nem nunca quis) nada de Angola, e muito menos dos angolanos, mas tão-somente a de quem quer para Angola, e para os angolanos, aquilo que quisemos, e queremos, para nós próprios: paz, liberdade, desenvolvimento sustentado e equilibrado. E com a certeza de que, mais uma vez infelizmente, a expressão tão elementar e básica das nossas convicções e opiniões, no quadro livre e democrático de uma opinião pública em tantos aspectos comum, vai despertar o tradicional rol de calúnias, ataques e incompreensões.

Mas é deste modo que melhor exprimimos a nossa profunda solidariedade para com o povo de Angola, apelando ao seu Presidente para que a legitimidade democrática se instaure no seu país e Angola ocupe o lugar que lhe cabe no mundo, como símbolo de liberdade, de justiça, de paz e desenvolvimento real, reflectidos na vida económica, social, cívica e política dos seus cidadãos.