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sexta-feira, março 06, 2009

EM DESTAQUE NO PÚBLICO

Um espião português
Vasco Pulido Valente

Quarta-feira, o DN e este jornal (este jornal na primeira página) revelavam com grande orgulho patriótico que Portugal tinha tido um espião nazi, que mudara o "curso" da II Guerra Mundial. Quem lesse atentamente a notícia descobria depois que o dito espião não mudara coisíssima nenhuma, entre outras razões porque foi preso antes de passar aos seus senhores da Alemanha a informação, que poderia mudar o dito "curso" (e é, de qualquer maneira, absurdo que mudasse). A (heróica?) figura de que se trata era o capitão Freitas Ferraz, que trabalhava por dinheiro e que a Inglaterra devolveu a Portugal em 1945 e acabou por indultar em 1953.Quarta-feira, o DN e este jornal (este jornal na primeira página) revelavam com grande orgulho patriótico que Portugal tinha tido um espião nazi, que mudara o "curso" da II Guerra Mundial. Quem lesse atentamente a notícia descobria depois que o dito espião não mudara coisíssima nenhuma, entre outras razões porque foi preso antes de passar aos seus senhores da Alemanha a informação, que poderia mudar o dito "curso" (e é, de qualquer maneira, absurdo que mudasse). A (heróica?) figura de que se trata era o capitão Freitas Ferraz, que trabalhava por dinheiro e que a Inglaterra devolveu a Portugal em 1945 e acabou por indultar em 1953. Calculo que a alma nacional ficou muito contente por adquirir o seu pequeno traidor, um ornamento que nos fazia muita falta.

Lastimo desiludir tanto entusiasmo. Segundo a história oficial, Freitas Ferraz vigiava tráfego naval no Atlântico e, se estivesse em liberdade, avisaria com certeza a Alemanha da aproximação da esquadra anglo-americana, com as tropas que a seguir invadiram o Norte de África em 7 e 8 de Novembro de 1942. Só que, apreendido pouco antes pela Marinha Britânica numa operação de alto mar, a bordo do navio português Gil Eanes, não conseguiu comunicar com ninguém e o desembarque aliado apanhou a guarnição francesa inteiramente desprevenida. Isto não é, pura e simplesmente, verdade. Os serviços secretos militares da Alemanha, que a Espanha e Portugal regularmente ajudavam, sabiam muito bem da existência da esquadra anglo-americana. Mas supunham que ela se dirigia a Malta (um ponto estratégico essencial) ou milhares de quilómetros para leste, para Trípoli, na retaguarda de Rommel.

E porque não ao Norte de África Francês? Porque Hitler julgava que a hostilidade da França de Vichy à Inglaterra a levaria a resistir em África e a intensificar a colaboração com a Alemanha; e que a América, calculando isso, não pensava em hostilizar Vichy. Engano dele. O Norte de África Francês, que esperava e se preparara para um assalto aliado, trocou de lado, e de inimigo, em menos de um dia. O papel (ou a ausência de papel) do espião português Freitas Ferraz nem longinquamente influenciou o "curso" da guerra, como com inexplicável orgulho contaram os jornais. Mesmo com mais de 30 anos de democracia e 20 de "Europa" a saloiice indígena continua sólida. Em 2008, até já lhe serve um mísero mercenário nazi.