PORTUGAL SERÁ� MELHOR

  • - se a casa de Aristides de Sousa Mendes fôr reconstruída para um projecto ligado com a sua vida
  • - se houver mais locais para pôr as mãos na massa
  • - se cada um de nós Ler +
  • - se cada um de nós respeitar os passeios como lugar de trânsito dos peões, sobretudo dos que têm menos mobilidade
  • - se for mandado para as urtigas o princí­pio, muito vulgarizado: Tudo pelos amigos, nada pelos inimigos. Aos outros aplica-se a lei. É mais simples e justo se a todos se aplicar a lei.

POR UM JORNALISMO MELHOR

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quinta-feira, março 12, 2009

DIA MUNDIAL CONTRA A CIBERCENSURA

EM DESTAQUE NO PÚBLICO

A fraude maioritária
Miguel Gaspar

Uma sondagem britânica recente concluiu que a maioria das pessoas mente quando fala de livros. Dizer-se que se leu o que não se leu por vontade de armar ao pingarelho ou para não ser apanhado em falso é um pecado partilhado por dois terços da humanidade. Uma maioria qualificada, portanto, prefere a mentira à verdade.Uma sondagem britânica recente concluiu que a maioria das pessoas mente quando fala de livros. Dizer-se que se leu o que não se leu por vontade de armar ao pingarelho ou para não ser apanhado em falso é um pecado partilhado por dois terços da humanidade. Uma maioria qualificada, portanto, prefere a mentira à verdade. Não deveríamos ficar demasiado espantados. Afinal de contas, não há nenhuma relação entre a literatura e a verdade. Assim sendo, porque teria de existir uma relação de verdade entre os livros e os leitores? Se, escrevia Pessoa, o poeta é um fingidor, dê-se ao leitor o direito a fingir sem que lhe doa.
O mais interessante nesta fraude maioritária é constatar que tem um nível muito aceitável a lista dos dez livros que mais gente diz ter lido mas de facto não leu. Não será surpresa, mas, bem vistas as coisas, isso até abona a favor de quem diz que lê, mas não lê.
Li esta notícia por acaso num jornal irlandês, que puxava para título o facto de o livro Ulysses, de James Joyce, aparecer em terceiro lugar nesta lista dos mais não lidos de sempre. Havia um paradoxal orgulho patriótico na notícia de que Joyce não é lido: a confirmação de que, além de ser indiscutivelmente reconhecida como uma das obras-chave da literatura do século passado, Ulysses é também uma das obras que mais pessoas gostavam de ter lido, se não fosse tão grande a maçada de ter de o ler. Ser um dos mais não lidos de sempre não é a mesma coisa do que ser um dos menos lidos de sempre.

É o 1984, de George Orwell, que encabeça esta tabela dos mais não lidos de sempre, o que nos permite questionar a honestidade dos critérios dos não leitores. (...)


Este artigo revela algo que toda a gente sabe, parte por experiência própria. É forte escrever sobre o que toda a gente vive, em maior ou em menor grau.

terça-feira, março 10, 2009

EM DESTAQUE NO PÚBLICO

Seja bem-vindo, apesar de...
Maria Antónia Palla

Esperamos que a legitimidade democrática se instaure em Angola e que esta ocupe o lugar que lhe cabe no mundo

Hoje chega a Lisboa o Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos.
A primeira coisa que queríamos sublinhar, quanto a esta visita de Estado feita a convite do seu homólogo português, é o Presidente de Angola nunca ter sido eleito, mas exercer essas funções há 30 anos. Mais: pelo caminho de uma eleição presidencial, parcialmente disputada mas não terminada (1992), ficou o cadáver do seu opositor Jonas Malheiro Savimbi cuja memória é útil, e justo, evocar nesta hora. Tanto mais quanto tem sido tão vilipendiada no que a essa eleição (e não só) diz respeito.

Jonas Savimbi, contrariamente ao que persistentemente se tem afirmado, por ignorância ou má fé, aceitou o resultado eleitoral, apesar de contestar a sua limpidez, e dispôs-se a disputar a segunda volta dessa eleição. O que se seguiu é sabido: milhares de apoiantes da UNITA, entre eles alguns dos principais dirigentes, foram massacrados em Luanda.
Mas este "pormenor", decisivo na nossa opinião, de tão repetidamente negado, desapareceu da "história". O Presidente José Eduardo dos Santos, legitimado ou não (na nossa opinião não!) pelo voto popular, representa a Angola de hoje. Um país a que nos unem tantos, e tão fortes, laços de afecto e de história. Um país tão rico de recursos naturais, e portanto de oportunidades económicas, mas tão profundamente desigual e assimétrico. Um país onde a esmagadora maioria da população vive em condições de miséria infra-humana, enquanto uma espaventosa nomenklatura desfruta, despudoradamente, dessa riqueza tão desigualmente repartida. Um país onde, todos o sabem mas muitos o calam, grassa a mais avassaladora e despudorada das corrupções. Em benefício de uma nomenklatura cleptocrática que domina, praticamente em exclusivo, o aparelho de Estado. Numa lógica que, em muitos aspectos, se confunde ainda com a lógica de partido único. Sistema, aliás, no qual o partido de José Eduardo dos Santos exerceu o poder durante a maioria dos 30 anos que já leva de presidência.

Claro que importa reconhecer que Angola representa para muitos portugueses que lá trabalham, e para muitas empresas portuguesas que lá estão, uma oportunidade maior de riqueza e prosperidade. Claro que é de justiça reconhecer que já não há em Angola muitos dos constrangimentos políticos às liberdades que durante tantos anos tolheram a vida pública daquele país independente. Até por via dos alinhamentos internacionais no quadro da desaparecida guerra fria. Que em Angola foi quente e, infelizmente, tragicamente sangrenta. Há também que reconhecer que, no exercício de um poder autocrático e tendencialmente totalitário, José Eduardo dos Santos e o seu partido revelaram uma esperteza, e até inteligência (por que não reconhecê-lo?), que pede meças a muito do que pudemos apreciar no cenário internacional dos últimos e desvairados anos. Nessa matéria, recorde-se apenas, e a título de exemplo, a clarividência astuta de José Eduardo dos Santos no cenário internacional bipolarizado que antecedeu a intervenção americana (Administração Bush) no Iraque, quando Angola ocupava um lugar no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Claro que José Eduardo dos Santos e o seu partido no poder beneficiam da complacência cúmplice, e não envergonhada, de tantos que em Portugal, e não só, são ou almejam ser seus parceiros de negócio(s). Uma complacência que fecha, ou desvia, os olhos da realidade de facto existente no terreno. No plano da igualdade de oportunidades entre os cidadãos e também as diversas forças políticas. No plano das opções estratégicas de desenvolvimento. No plano da boa e transparente governação. No plano das cumplicidades estratégicas e de poder, nomeadamente em termos regionais na África subsariana (veja-se o caso Mugabe).

Esclareça-se que exprimimos, com franqueza e frontalidade, a nossa posição. Em nome exclusivamente das nossas convicções e daquilo que consideramos a verdade dos factos, e da verdade histórica que importa sempre respeitar. A partir de uma posição de esquerda, que é, e sempre foi, a nossa. Imbuídos de um profundo respeito pela independência de Angola e dos angolanos. Pela qual, modesta mas activamente, nos batemos, antes de estar reconhecida. E numa lógica de amor àquela terra e àquele povo, a tantos títulos, irmão de facto de Portugal e dos portugueses. Com a limpidez de alma de quem não quer (nem nunca quis) nada de Angola, e muito menos dos angolanos, mas tão-somente a de quem quer para Angola, e para os angolanos, aquilo que quisemos, e queremos, para nós próprios: paz, liberdade, desenvolvimento sustentado e equilibrado. E com a certeza de que, mais uma vez infelizmente, a expressão tão elementar e básica das nossas convicções e opiniões, no quadro livre e democrático de uma opinião pública em tantos aspectos comum, vai despertar o tradicional rol de calúnias, ataques e incompreensões.

Mas é deste modo que melhor exprimimos a nossa profunda solidariedade para com o povo de Angola, apelando ao seu Presidente para que a legitimidade democrática se instaure no seu país e Angola ocupe o lugar que lhe cabe no mundo, como símbolo de liberdade, de justiça, de paz e desenvolvimento real, reflectidos na vida económica, social, cívica e política dos seus cidadãos.

segunda-feira, março 09, 2009

DESENHOS ANIMADOS, uma mestiçagem




O livro Desenhos animados: Discursos sobre ser criança, de Ema Sofia Leitão será apresentado hoje, 10 de Março 2009, 3a feira, à 19 horas, na Monstra, Festival de Animação de Lisboa (9 a 15 de Março), no cinema S. Jorge, em Lisboa. A apresentação está a cargo de Cristina Ponte, Professora da Universidade Nova de Lisboa e de Fernando Galrito, organizador do Festival. Cristina Ponte fez o prefácio do livro, prefácio que pode ser lido no meu site.

A Construção do Olhar é o nome de uma nova colecção de livros sobre as imagens, das Edições 70. A colecção procurará dar seguimento à concepção que as imagens se completam com as palavras: para falar de uma imagem são precisas mil palavras, diz-se. Esta é a razão maior para a colecção: publicar palavras sobre as imagens, os olhares, os ecrãs, os modos de as fabricar, de as ler e usar. Palavras que possam ser contributos para construir o olhar, para nos revelar modos de ver. Palavras que se ambiciona nos ajudem a não perecer num tsunami de imagens: as imagens, sem palavras e sem outras formas de apropriação e expressão, podem ter efeitos devastadores.

Começámos com A Fábrica do Olhar, de Monique Sicard (2006). Seguiram-se Indústrias Culturais, de Rogério Santos, Manual para pais cujos filhos vêem demasiada televisão, de Serge Tisseron e agora Desenhos Animados : Discursos sobre Ser Criança.
Em Maio será lançado o Terror Espectáculo, de Daniel Dayan que se tornará o quinto livro da colecção.

domingo, março 08, 2009

DIA INTERNACIONAL DA MULHER




Ver no SÓ TEXTOS como se comemora o dia, em Sesimbra.

sábado, março 07, 2009

BLOGUE DO PROF. CHAPARRO

Os entendidos no assunto dizem que sexta-feira não é dia adequado para enviar recados aos internautas. A verdade, porém, é que o nosso “O Xis da Questão” está com conteúdos novos, um deles Aula 13 do “Curso de Jornalismo” (em vídeo). E penso que vale a pena ler também o comentário que faço sobre “o caso Paula Oliveira”, no Postigo do Diálogo.

Enviado pelo Prof. Chaparro
.

sexta-feira, março 06, 2009

DOIS DESTAQUES...

"Cidadania Digital e Participação Democrática

O Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade Técnica de Lisboa acolhe, no próximo dia 19 de Março, o seminário sobre Cidadania Digital. Trata-se de uma iniciativa organizada pelo Grupo de Trabalho de Comunicação e Política da SOPCOM em parceria com o Centro de Administração e Políticas Públicas do ISCSP.
Paula Espírito Santo, professora no ISCSP, Rogério Santos, professor na Universidade Católica Portuguesa, João Carlos Correia, professor na Universidade da Beira Interior, e António Rosas, professor na Universidade do Porto, são alguns dos conferencistas que vão marcar presença na iniciativa. A cidadania digital e a participação democrática serão os temas centrais do encontro onde serão também abordados casos práticos. O seminário realiza-se no dia 19 de Março, no anfiteatro Adriano Moreira do ISCSP, entre as 9h30 e as 18h30. A entrada é livre. »»

IV Jornadas Internacionais de Jornalismo

Subordinadas ao tema “Os jovens e a renovação do jornalismo”, realizam-se no dia 4 de Abril, as IV Jornadas Internacionais de Jornalismo, na Universidade Fernando Pessoa (Porto). No site oficial estão disponíveis os resumos de comunicações plenárias e de comunicações apresentadas às sessões para comunicações de tema livre, bem como o programa provisório. »»


...da newsletter da Sopcom. Pode ver mais em SÓ TEXTOS

FRANCOFONIA

Ver a Semana da Francofonia em SÓ TEXTOS

HOJE, NA BIBLIOTECA ORLANDO RIBEIRO



A Papiro Editora promove no próximo dia 6 de Março pelas 21h30m, no âmbito do Dia Internacional da Mulher, uma tertúlia intitulado Palavra de Mulher, que reune cinco autoras no auditório da Biblioteca Orlando Ribeiro, em Lisboa.

Inserido nas comemorações do Dia Mundial da Mulher, este evento pretende discutir e apreender o papel das autoras mulheres na cultura portuguesa, mas também o lugar destas na sociedade portuguesa nos dias de hoje, através das palavras escritas e de tudo o que se pretende dizer, com intervenção do público em geral mas também de alguns convidados em particular

Presentes estarão Maria Quintans, Teresa Salvado, Joana Branco, Otília Martel e Cristina Soares,... Autoras respectivamente de Apoplexia da Ideia, Das Minhas Águas Furtadas, Café, Canela e Coração, Menina Marota e Gineceu.

Recebido de Maria Quintans

EM DESTAQUE NO PÚBLICO

Um espião português
Vasco Pulido Valente

Quarta-feira, o DN e este jornal (este jornal na primeira página) revelavam com grande orgulho patriótico que Portugal tinha tido um espião nazi, que mudara o "curso" da II Guerra Mundial. Quem lesse atentamente a notícia descobria depois que o dito espião não mudara coisíssima nenhuma, entre outras razões porque foi preso antes de passar aos seus senhores da Alemanha a informação, que poderia mudar o dito "curso" (e é, de qualquer maneira, absurdo que mudasse). A (heróica?) figura de que se trata era o capitão Freitas Ferraz, que trabalhava por dinheiro e que a Inglaterra devolveu a Portugal em 1945 e acabou por indultar em 1953.Quarta-feira, o DN e este jornal (este jornal na primeira página) revelavam com grande orgulho patriótico que Portugal tinha tido um espião nazi, que mudara o "curso" da II Guerra Mundial. Quem lesse atentamente a notícia descobria depois que o dito espião não mudara coisíssima nenhuma, entre outras razões porque foi preso antes de passar aos seus senhores da Alemanha a informação, que poderia mudar o dito "curso" (e é, de qualquer maneira, absurdo que mudasse). A (heróica?) figura de que se trata era o capitão Freitas Ferraz, que trabalhava por dinheiro e que a Inglaterra devolveu a Portugal em 1945 e acabou por indultar em 1953. Calculo que a alma nacional ficou muito contente por adquirir o seu pequeno traidor, um ornamento que nos fazia muita falta.

Lastimo desiludir tanto entusiasmo. Segundo a história oficial, Freitas Ferraz vigiava tráfego naval no Atlântico e, se estivesse em liberdade, avisaria com certeza a Alemanha da aproximação da esquadra anglo-americana, com as tropas que a seguir invadiram o Norte de África em 7 e 8 de Novembro de 1942. Só que, apreendido pouco antes pela Marinha Britânica numa operação de alto mar, a bordo do navio português Gil Eanes, não conseguiu comunicar com ninguém e o desembarque aliado apanhou a guarnição francesa inteiramente desprevenida. Isto não é, pura e simplesmente, verdade. Os serviços secretos militares da Alemanha, que a Espanha e Portugal regularmente ajudavam, sabiam muito bem da existência da esquadra anglo-americana. Mas supunham que ela se dirigia a Malta (um ponto estratégico essencial) ou milhares de quilómetros para leste, para Trípoli, na retaguarda de Rommel.

E porque não ao Norte de África Francês? Porque Hitler julgava que a hostilidade da França de Vichy à Inglaterra a levaria a resistir em África e a intensificar a colaboração com a Alemanha; e que a América, calculando isso, não pensava em hostilizar Vichy. Engano dele. O Norte de África Francês, que esperava e se preparara para um assalto aliado, trocou de lado, e de inimigo, em menos de um dia. O papel (ou a ausência de papel) do espião português Freitas Ferraz nem longinquamente influenciou o "curso" da guerra, como com inexplicável orgulho contaram os jornais. Mesmo com mais de 30 anos de democracia e 20 de "Europa" a saloiice indígena continua sólida. Em 2008, até já lhe serve um mísero mercenário nazi.

EM DESTAQUE NO PÚBLICO

Erros meus
Miguel Esteves Cardoso Ainda ontem

Perdi por um dia o aniversário do PÚBLICO mas prefiro dar-lhe os parabéns hoje, pela edição de ontem. Sobretudo pelo esplêndido catálogo de asneiras assinado por Luís Francisco no P2. Nada satisfaz como o disparate alheio. Por muito que se cultive a britânica autodepreciação, fica sempre uma vergonha corrosiva cá dentro por cada atoarda da nossa autoria. Eu cá estampei-me duas vezes na primeira página de O Independente com tal aparato que ainda hoje não consigo achar-lhes graça, tal as trago estampadas na minha alma. A pior, depois do incêndio do Chiado, foi quando evoquei, armado em historiador a sério, o magnífico exemplo de reconstrução após o sismo de 1980 dado pelo povo da heróica cidade de Ponta Delgada.
Recebi centenas de cartas e telefonemas, cada uma das quais uma facada, nenhuma delas injusta, pela proeza de ter sido o único a conseguir ofender a Angra do Heroísmo por causa daquela tragédia.
A outra, filha do diabo do jornalismo - a falta de notícias - foi ter adivinhado que na sexta-feira de Julho em que sairia o jornal, por causa da onda de calor e de dois incêndios na véspera, iriam deflagrar muitos mais. "Portugal consumido pelas chamas" era a manchete gigantesca, por baixo duma foto crucial de uma chama.
Nessa sexta-feira começou a chover em cascata às quatro da manhã e só parou no domingo. A imagem das pilhas de O Independente encharcadas, com aquela primeira página a dissolver-se sob as bátegas, ainda reaparece nos meus pesadelos.

quinta-feira, março 05, 2009

OS JORNAIS & EU

António Lobo Antunes

É pena que os jornais, como a literatura, sejam uma estrebaria de porta aberta: devia ser reservada aos profissionais sérios, que decerto existem. Conheço alguns. Estes parágrafos para o PÚBLICO são uma homenagem a esses nomes. Em criança (e em adolescente, e em adulto) não havia jornais na minha casa mas havia jornais nas casas da minha família. Na do meu avô paterno lembro-me do Debate, monárquico, impossível de ler porque estava sempre dobrado e com a cinta posta. Na do meu tio Elói, aí sim, abertos, os semanários da sua terra, o Ecos de Pombal e o Notícias de Pombal. Na secção necrológica do Ecos li uma ocasião uma notícia que começava assim: faleceu oportunamente no Brasil o senhor Fulano de Tal, tio do nosso estimado amigo Não Sei Quê Não Sei Quê. Na do meu outro avô, em Nelas, era o Diário de Notícias, que chegava no comboio da meia-noite e trazíamos, de bicicleta, da estação. O meu outro avô, de casaco de linho branco, passava horas a lê-lo na varanda para a serra. Depois do casaco de linho morrer a minha avó substituiu o Diário de Notícias pelo Almanaque da Sãozinha, cheio dos milagres da dita, relatados por crentes agradecidos. Num desses prodígios uma senhora contava que, de pobre que era, olhava em lágrimas as panelas vazias do almoço. Veio-lhe a Sãozinha à ideia, rezou com empenho, entrou-lhe de imediato uma lebre pela cozinha dentro, fechou a cozinha, matou a lebre à paulada e regalou-se a comer prodígio divino de cabidela. Confesso que esta dádiva da Sãozinha me fez um bocado de impressão, ao imaginar o assassinato do bicho. Até ao fim da sua vida a pagela da santa dos roedores ocupou um lugar importante no oratório da minha avó: uma adolescente de aspecto virtuoso, cheia de medalhas, que ofereceu a sua existência terrena em troca da conversão dos pais. Jesus fez-lhe a vontade arrebatando-a, estou a citar, ao nosso convívio, e os pais incréus descobriram o Altíssimo que, mesmo através da cabidela e do fricassé, se manifesta à gente, ou não mesmo, de preferência através da cabidela e do fricassé, misturando o Céu com o micro-ondas e os mandamentos com batatinhas salteadas.

Na ideia de entender o interesse do meu outro avô pelo Diário de Notícias comecei a folheá-lo, não era aos quadradinhos e portanto aborreceu-me. Troquei-o por pilhas antigas das Selecções do Reader's Digest em que achei nacos de prosa fascinantes: "Encontrei o Amor no Hospital Ortopédico", "Eu Sou o Testículo de João", "Ao Ficar Cega a Sua Existência Ganhou Sentido". Mais tarde A Bola e o Record, sobretudo A Bola onde trabalhavam grandes jornalistas (Carlos Pinhão, Aurélio Márcio, Vítor Serpa, as extraordinárias reportagens da Volta à França de Carlos Miranda que bem mereciam estar reunidas em livro e nada devem às de Antoine Blodin) e quando esta geração deixou de escrever eu fui deixando de ler. Ao PÚBLICO devo o ter começado a ensaiar prosinhas em forma de crónica, graças ao convite de Vicente Jorge Silva, que eu não conhecia e me convidou para o suplemento dos domingos, salvando-me, porque a editora, à época, não pagava, de vender Bordas de Água nas pastelarias ou arrumar automóveis - Trôça, trôça
na zona do Saldanha, a coçar a magreza com o debrum preto das unhas. Agora não leio jornais: vejo o teletexto, a única coisa, aliás, que vejo na televisão desde que o futebol deixou de ser um desporto, a política uma ocupação digna e a cultura se transformou em banalidades veementes, uma estrebaria de porta aberta em que toda a gente entra, como dizia D. Francisco Manuel de Melo, autor muito do meu afecto. Vejo as capas e as primeiras páginas no quiosque frente ao restaurantezito onde como e passo à frente. As prosinhas do PÚBLICO aparecem hoje na Visão, onde sempre me trataram com extrema delicadeza. Há pouco abri um exemplar e dei com umas tantas frases acerca de mim, estúpidas, desonestas e ignorantes: fiquei curado. É pena que os jornais, como a literatura, sejam uma estrebaria de porta aberta: devia ser reservada aos profissionais sérios, como os nomes de que há pouco falei, e que decerto existem. Conheço alguns. Estes parágrafos para o PÚBLICO são uma homenagem a esses nomes. O que me assusta é o facto de qualquer pessoa estar à mercê de criaturas medíocres, sem possibilidade de rectificar a pulhice. Faleceu oportunamente no Brasil: ao menos o Ecos de Pombal era sincero. A lebre para a esfomeada com fé: ao menos o Almanaque da Sãozinha dava esperança a quem almoça um carioca e um salgado ao balcão. Ao ficar cega a sua existência ganhou sentido: ao menos as Selecções do Reader's Digest animavam os que tropeçam. Se tornar a meter o olho entre páginas e receber sinceridade, esperança e sentido com certeza que lerei. E se o testículo de João for o testículo de António, então, juro, não perco uma sílaba. Desde miúdo que me dá vontade de abrir os brinquedos, a verificar como funcionam. E tenho um par de tais apêndices de que ignoro o mecanismo e nos quais suspeito (não estou seguro) que não existem parafusos nem roscas. Foram um presente dos meus pais e como quase tudo em mim continuam a ser um mistério. Devíamos vir com manual de instruções, como os electrodomésticos.

in PÚBLICO