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domingo, dezembro 28, 2008

PROVEDORIAS, no DN, ontem

Li, com interesse, esta crónica de Mário Bettencourt Resendes. Evoca um nome importante do jornalismo, sugere leituras e visionamentos, aflora as engrenagens do produção televisiva, deixa um "recado" aos jornalistas. O Estatuto do Provedor dos Leitores do DN fez bem em dar liberdade ao provedor deste escrever sobre outros assuntos que não a resposta directa a problemas levantados pelos leitores.

BOA NOITE E BOA SORTE
Mário B. Resendes
provedor@dn.pt

Edward R. Murrow é um dos nomes míticos dos anais do jornalismo. Pertence a um grupo de profissionais - não tão restrito como hoje alguns pretendem... - que nunca transigiu nos princípios de independência e rigor e teve ainda o privilégio de contribuir, com o seu magistério de testemunha activa e interveniente, para que a história da liberdade seguisse rumos menos sombrios.

Como correspondente da CBS (rádio), Murrow transmitiu para milhões de norte- -americanos a corajosa resistência do povo de Londres aos bombardeamentos e à destruição provocada pela aviação nazi. Deve-se-lhe, sem dúvida, uma quota-parte da mudança no estado de espírito da opinião pública do seu país relativamente à hipótese de entrada na guerra.

Os créditos de Murrow vão, no entanto, bem mais longe. Numa altura em que se contesta - reconheça-se que com alguma pertinência... - a qualidade do jornalismo dos nossos dias, o provedor permite-se sugerir que se aproveite alguma das pausas desta época do ano para o visionamento do filme (disponível em DVD) Boa noite e boa sorte (Good night and good luck), as palavras com que, invariavelmente, terminava o seu programa semanal de informação See it Know e que se tornaram numa espécie de "imagem de marca" do jornalista.

O filme, uma incursão de George Clooney nos domínios da realização, está longe de ser uma obra-prima, mas tem o mérito de documentar, com apreciável rigor histórico, o episódio mais significativo da carreira de Murrow: a sequência de programas que teve um papel decisivo na queda do sinistro senador Joe McCarthy e da sua campanha de "caça às bruxas", que tanto sofrimento e injustiça causou em vários sectores da sociedade norte-americana, nomeadamente nos meios intelectuais e artísticos.

Para todos os que se interessam pela temática, será útil completar o filme com a leitura de algum material sobre a vida de Murrow, por exemplo, a biografia, relativamente condensada (160 páginas) da autoria de Bob Edwards (Edward R. Murrow and the Birth of Broadcast Journalism - Edições Wiley Turning Points, Nova Jérsia, EUA, 2004).

Murrow não se limitou (como se fosse pouco...) a ser um jornalista corajoso e imune a pressões de toda a ordem. Foi ainda um precursor em vários domínios técnicos (algumas das suas inovações são, ainda hoje, parte do dia-a-dia da televisão), fez, com pleno êxito, a transição da rádio para a televisão e contribuiu, com as opções de conteúdo "sério" dos seus programas, para sensibilizar audiências alargadas para a importância de questões incómodas, que muitos gostariam que passassem à margem das atenções do grande público.

Deve sublinhar-se que os êxitos de Murrow foram possíveis também porque teve um apoio sólido do fundador da CBS e presidente executivo da estação, o seu amigo pessoal Bob Paley, que não vacilou em alturas cruciais, nomeadamente nos programas sobre McCarthy.

Como em quase todas as histórias, esta também tem o seu reverso negativo, que remete, curiosamente, para lições que, mais de meio século depois, têm hoje plena actualidade. A entrada da CBS na bolsa criou à Paley novas preocupações face à reacção de accionistas e anunciantes perante a controvérsia dos programas de Murrow. A relação entre os dois amigos, pressionada pe-la procura de audiências e de receitas, deteriorou-se e não sobreviveu a ditames que são histórias bem conhecidas da informação televisiva dos tempos que correm.

O programa de Murrow começou por ser afastado do horário nobre e foi posteriormente eliminado. Num desenvolvimento que também não é uma originalidade contemporânea, Murrow - na altura já com a saúde gravemente debilitada - aceitou um convite do presidente Kennedy para presidir à USIA, a agência de informação oficial do Governo norte-americano. Trágica ironia: o jornalista que tinha sido um símbolo de independência face a todos os poderes passou a ter como missão o condicionamento da "informação oficial".

A reputação de Murrow sobreviveu, mesmo assim, a essa surtida no outro lado da barreira. Morreu no dia 27 de Abril de 1965, com 57 anos, e o seu legado profissional merece figurar nas páginas nobres da história do jornalismo: "Boa noite e boa sorte."

P.S. - Fonte que merece todo o crédito ao provedor assegura que não é exacta a transcrição, feita na coluna da última semana, de palavras atribuídas à ministra da Saúde, de pretensa censura a um jornalista da RTP. Assim sendo, é devido um pedido público de desculpas à visada.

A todos os leitores, o provedor deseja um excelente 2009 (assim o permita a crise...), de preferência preenchido com leitura de qualidade, jornais incluídos.