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terça-feira, dezembro 16, 2008

OS MEDIA, O JORNALISMO E NÓS

O combinado
Helena Matos

Os jornalistas só existem para fazer perguntas combinadas? Ana Jorge pensa que sim. Nos anos 70, o combinado estava na moda. O combinado era uma refeição ligeira, cujo sabor propriamente dito não interessava nada porque o interesse do combinado estava no aspecto. Aquelas camadinhas de pão de forma torrado, mais as folhas de alface, queijo, fiambre e um ovinho estrelado a rematar eram a estrutura ideal para se desconstruir, enquanto se discutia o último artigo do Sartre ou teorizava sobre a abertura a leste.
Claro que existiam combinados para vários gostos e bolsas mas o que contava no combinado era aquele lado "faz de conta que é refeição mas não é refeição". Ora, o combinado, agora na versão jornalística, está de volta. (Na versão gastronómica será mais difícil. Em primeiro lugar porque o país parece subitamente uma comunidade de gastrónomos e enólogos que saltitam de clubes gourmet para cursos de vinhos e sobretudo porque desde que o muro de Berlim caiu que nada de tão dilemático-desconstrutivo apareceu quanto outrora o foi o marxismo para fazer a humanidade abstrair-se do que mastiga). Quanto ao combinado jornalístico está de facto triunfante, como a ministra Ana Jorge fez o favor de lembrar a um jornalista da RTP: "O quê? O senhor não sabe o que está combinado? Que hoje só pode fazer perguntas sobre esta cerimónia e sobre o plano de combate à sida nas escolas? Ainda por cima é da RTP, a televisão pública, a fazer uma coisa destas. E, depois, logo à noite, não sai a reportagem" - exclamou indignada a ministra da Saúde.
Como é óbvio, quem convoca uma conferência de imprensa é livre de responder ou não às perguntas colocadas e os membros do Governo ali presentes tinham o absoluto direito de lembrar aos jornalistas que estavam ali para falar dum plano de combate à SIDA. Outra coisa bem diversa é que uma ministra pressuponha que os jornalistas estão ali para fazer perguntas combinadas e que a televisão pública tem a obrigação de cumprir com especial desvelo o produto dessa combinação. Mas enfim, a ministra Ana Jorge sabe que lhe basta convocar uma nova conferência de imprensa para anunciar que vai baixar o preço de alguns medicamentos ou torná-los gratuitos para saber que terá uma nova onda de boa imprensa, pois de há muito que ninguém pergunta a um ministro quem paga o que eles dizem ser gratuito ou aquilo que prometem dar.
Contudo, seria excelente que os jornalistas tomassem à letra o raspanete de Ana Jorge e fizessem perguntas a sério, nas centenas de conferências de imprensa organizadas pelo Governo e pelas autarquias para apresentação de outras tantas centenas de planos. Talvez assim se tornasse mais claro que de muitos desses planos (para lá do power point da apresentação, com aquelas frases do costume a exalarem o estilo inconfundível das agências de comunicação) não existe mesmo mais nada para mostrar.
O poder habituou-se a que plano apresentado é plano para os jornalistas divulgarem com o empolgamento acrítico de um serviço de propaganda. Mas não só. O poder conta que plano apresentado é plano que fazemos de conta que existe e sobre o qual não se prestam mais informações além daquelas boas-novas transmitidas nas cerimónias de apresentação. Só essa combinação explica, por exemplo, que o presidente do Instituto da Droga e Toxicodependência (IDT), João Goulão, nunca tenha sentido a obrigação de explicar o que aconteceu com o Plano de Troca de Seringas nas prisões que teve um insucesso de 100 por cento, uma percentagem que, à excepção da Síria e da Líbia, não é normal em lugar algum do mundo. Não sabemos o que acontece nas cadeias portuguesas para que se verifiquem estes valores de rejeição a um plano que o IDT expôs tão brilhantemente aquando da apresentação e o pior é que o IDT também parece saber pouco ou calar-se sobre o que sabe. Mas sabemos que a apresentação do dito plano correu muito bem, tão bem que pouco mais se falou sobre ele. E muito menos sabemos o que é feito do Plano de Intervenção Estrutural para o Sector Cultural no horizonte 2007-2013. Mas não nos envergonhemos com a nossa ignorância, porque no próprio Ministério da Cultura, que encomendou o plano e a quem pedi para o consultar, também não conseguiram até agora localizá-lo.
Não têm conta os planos anunciados por ministérios e autarquias dos quais ninguém mais ouviu falar após a cerimónia de apresentação. Ora, como nunca é tarde para mudar de hábitos, comecemos exactamente por este plano de combate à sida nas escolas. Como a ministra manda, vamos falar sobre o combinado - o plano - e o seu ministério compromete-se a responder sobre os seus resultados com dados mais precisos do que os números balbuciados na AR pela senhora ministra quando inquirida sobre as dívidas do Serviço Nacional de Saúde.

a McDonald é sinónimo de mau gosto. A propósito das mudanças na Antena 2, Mário Vieira de Carvalho condenou no PÚBLICO o que define como "macdonaldização" daquela estação de rádio. Para lá do que pensa o ex-secretário de Estado da Cultura sobre a Antena 2, gostaria de perceber o que o leva a considerar que está combinado que MacDonald é sinónimo de mau gosto. Coisa a evitar. Pois tal combinação é duma arrogância insuportável. Os restaurantes como o McDonald atendem com a mesma atenção e delicadeza ricos e pobres. (E para muitos pobres é aquele o único sítio onde são tratados como clientes.) Proporcionam a pessoas que não têm dinheiro para debicar a preço de ouro as tendências da slow food um espaço de restauração limpo, agradável, quente no Inverno, fresco no Verão e onde se pode estar sentado o tempo que se quiser, independentemente do preço da garrafa de vinho que veio para a mesa ou do cargo que se ocupa na escala do poder. E por fim, mas não menos importante, tanto pelas pessoas que empregam como pela variedade de quem o frequenta, as cadeias de fast food - que também têm saladas e sopas! - fazem mais pela integração dos imigrantes e pelo cruzamento de culturas do que muitos desses constrangedores exercícios narcísico-clientelares que o Estado português paga (e que inadequadamente são designados política cultural) com vista à promoção do multiculturalismo e da integração.

a Os jovens contestatários gregos apenas têm um problema de expressão. Suponhamos que os meninos que na Grécia queimam carros, destroem edifícios e agridem quem lhes aparece pela frente - como se esse fosse um seu direito natural - em vez de se dizerem anarquistas ou activistas de esquerda se reivindicavam nazis. Será que seriam tratados com a mesma bonomia para não dizer cumplicidade mediática? Considerar-se-ia normal que as notícias tivessem como pressuposto que o Governo grego se devia demitir para que assim os tumultos parassem e os meninos se dessem por vitoriosos e satisfeitos? Claro que não. Mas infelizmente está combinado que se o vandalismo for praticado por grupos que, mesmo que muito longinquamente, se possam dizer de esquerda ou identificar com ela então passam de vândalos a activistas contestatários, jovens um pouco exaltados em processo de contestação a uma sociedade decadente e ela sim culpada por tudo aquilo que eles fazem ou não fazem. Há combinados que nunca mudam, e este é um deles. Para a mesa das notícias este combinado vai sempre acompanhado da forte convicção de que os prejuízos devem ser estoicamente suportados pela mesmíssima sociedade que aquelas criaturinhas tanto abominam mas na qual têm um estatuto privilegiadíssimo.

a Na escola não há violência e sobretudo na Casa Pia tudo vai no melhor dos mundos. Esta não é apenas uma combinação. É um dogma. E contrariar um dogma não é fácil. Não adianta que os comerciantes da zona próxima ao colégio onde foi assassinado o aluno da Casa Pia digam que as rixas são frequentes. As declarações dos alunos do colégio em questão sobre a frequência dos desacatos também não beliscam a fé oficial do "está tudo bem" que vigora na Casa Pia. Aliás, da presidente do conselho directivo daquela instituição, Joaquina Madeira, além das declarações sobre que "era impensável" um ataque destes, o que de mais notório se lhe conhecia eram umas apreciações estéticas sobre o símbolo da Casa Pia. Na visão ideológico-estética da escola que vigora está combinado que tudo vai no melhor dos mundos. Não vai, mas há quem esteja disposto a tudo para literalmente manter a combinação.

in Público


Helena Matos considera, e bem, que seria bom que os jornalistas fizessem perguntas a sério."Contudo, seria excelente que os jornalistas tomassem à letra o raspanete de Ana Jorge e fizessem perguntas a sério, nas centenas de conferências de imprensa organizadas pelo Governo e pelas autarquias para apresentação de outras tantas centenas de planos.Talvez assim se tornasse mais claro que de muitos desses planos (para lá do power point da apresentação, com aquelas frases do costume a exalarem o estilo inconfundível das agências de comunicação) não existe mesmo mais nada para mostrar." É uma boa razão para os jornalistas fazerem perguntas a sério. Mas, se falarmos de jornalismo sério, como evitar as perguntas pertinentes? As que se relacionam com os factos? As que trazem dados novos sobre os factos na pergunta ou na resposta? Ou seja, os jornalistas deviam prepara-se melhor. Só assim se conseguem perguntas adequadas.