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sexta-feira, novembro 02, 2007

CRIANÇAS e MEDIA: Pesquisas e Práticas.


O Centro de Investigação Media e Jornalismo (CIMJ), as Edições MinervaCoimbra e o El Corte Inglés têm o gosto de convidar para o lançamento do n.º 11 da revista Media & Jornalismo

CRIANÇAS e MEDIA: Pesquisas e Práticas.

A apresentação será feita pelos Prof. Doutores Manuel Pinto e Sara Pereira (Universidade do Minho).

A sessão realiza-se no próximo dia 5 de Novembro de 2007, na Sala de Âmbito Cultural, Piso 7, do El Corte Inglés de Lisboa.


ÍNDICE
Será possível uma voz global? Crianças migrantes, novos media e limites do empowering
David Buckingham e Liesbeth de Block

Cobrindo políticas públicas sociais: a importância conferida à agenda da infância e da adolescência
Guilherme Canela de Souza Godoi

Mudam-se os tempos, mudam-se as notícias? A cobertura jornalística de crianças no Público e Diário de Notícias em 2000 e 2005
Cristina Ponte

“Quando a escola visita o hospital”. O lugar das notícias na vida das crianças. Estudo exploratório
Maria João Malho, Isabel Pato e Vítor Tomé

Corpo, espetáculo e consumo: novas configurações midiáticas para a infância
Eliane Medeiros Borges

Do Continente até à Ilha das Cores, televisão para o pré-escolar
Teresa Paixão

Paradigmas, imagens e concepções da infância em sociedades mediatizadas
Catarina Tomás


EDITORIAL
Este número da Media e Jornalismo baseia-se na perspectiva de que a cidadania não tem início aos 18 anos e de que considerações sobre crianças e media necessitam de ter presentes contextos mais vastos, não só os da globalização e da individualização que marcam as sociedades em que vivemos, mas também os olhares culturais sobre os mais novos e dos mais novos, quase duas décadas depois da Convenção Internacional dos Direitos da Criança, de 1989.
A abrir os artigos sobre o tema, David Buckingham e Liesbeth de Block, do Instituto de Educação da Universidade de Londres, fazem uma leitura crítica de um projecto de investigação europeu que coordenaram e que visava “dar voz” a crianças migrantes a residirem em vários países, pela criação de uma rede social de partilha dessa experiência de vida, com recurso aos novos media. Ao apresentarem a avaliação das questões sociais e pedagógicas – e também políticas – que este projecto levantou, os autores sublinham as dificuldades encontradas e como seria redesenhado, fornecendo assim importantes recomendações para a pesquisa. Discutem não só os limites das novas tecnologias e dos ambientes em que foram utilizadas, mas também questões pedagógicas e políticas, como as posições ocupadas por investigadores e pelas crianças; evidenciam a tensão entre os propósitos da pesquisa, entre eles a necessidade de apresentar resultados a curto prazo, imposta pelas condições de financiamento, por um lado, e as práticas e interesses das crianças, incluindo a sua própria recusa em ter voz enquanto migrantes, por outro. Buckingham, um dos investigadores de referência no estudo das relações entre crianças e media, mostra assim como a identificação de problemas e a sua superação são parte inalienável do processo contínuo de pesquisa.
O artigo de Guilherme Canela, da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI), do Brasil, inicia uma sequência de contributos que têm como alvo as notícias sobre crianças.
O autor, com formação em Ciência Política e coordenador da investigação da ANDI, recorre a teorias do jornalismo, como o agenda-setting, para discutir as características da cobertura de “políticas públicas sociais”, apresentando esse conceito, os seus diversos tempos de concretização e elementos constitutivos. Pela situação social de crianças e adolescentes brasileiros, sustenta o seu lugar como “pauta central” do jornalismo no país. Com base na monitorização que a ANDI tem vindo a fazer sobre os grandes jornais brasileiros, desde 1996, o autor
apresenta e discute a cobertura da infância e adolescência sob a óptica das diferentes políticas públicas. Ressalta como a atenção jornalística se focaliza em determinados momentos e ângulos dessas políticas públicas (como o seu anúncio), sendo deficitária na contextualização (como o acompanhamento e avaliação dos impactos) e de como, por essas vias, os media “enfraquecem as suas próprias capacidades de agendamento”.
Essas são também conclusões encontradas na cobertura de dois jornais portugueses de referência, em 2000 e 2005, tratadas no artigo seguinte, no âmbito do Projecto Crianças e Jovens em Notícia. A partir do lugar das infâncias nas sociedades contemporâneas de risco, individualização e globalização, Cristina Ponte dá conta das variações na cobertura jornalística de crianças (0-14 anos) e de temas com elas relacionados nos jornais Público e o Diário de Notícias. Registou-se em 2005 uma notória subida no número de peças, com mais opinião e novas linguagens, uma cobertura mais local e nacional. A par de uma atenção privilegiada à Educação e de uma crescente presença da criança consumidora, em novas secções, a agenda foi marcada sobretudo por “casos” que vinham de trás, entre eles Casa Pia e Joana, a fazer disparar as peças sobre abuso sexual e crianças maltratadas. Se estes eventos estimularam a avaliação sobre direitos de protecção, continuou residual a atenção a outros direitos: trabalho infantil, assistência à infância, prevenção e segurança estiveram praticamente ausentes destes jornais. Nestes títulos de referência, sustenta-se que a cobertura noticiosa de questões relacionadas com crianças estará sobretudo “orientada para a esfera privada das famílias e a sua gestão individualizada de riscos e responsabilidades”.
Ainda no âmbito desse Projecto, apresentam-se os primeiros resultados de uma pesquisa sobre a relação das crianças com as notícias, de jornais ou de televisão, como as integram no seu dia a dia e como se exprimem face a elas. Este estudo exploratório inquiriu crianças (8-14 anos) de diferentes escolas, meios sociais e áreas de residência e dá corpo ao artigo de Maria João Malho e Isabel Pato, do Instituto de Apoio à Criança, e Vítor Tomé, jornalista que tem trabalhado sobre a produção de crianças em jornais escolares. A análise das respostas das crianças a um inquérito desenhado e aplicado pelos autores faz ressaltar a diferença de ambientes em que crescem as crianças, incluindo as mediações familiares, e a força da memória de acontecimentos traumáticos que envolvem crianças recorrentemente usados pelos media noticiosos.
Outras representações de crianças nos meios de comunicação social, são trabalhadas no artigo de Eliane Medeiros Borges, da Universidade de Juiz de Fora, Brasil. A autora discute uma “nova configuração da infância, construída a partir de uma lógica do consumo”, que assenta numa espectacularização do corpo, nomeadamente do corpo feminino. Sublinha como “as representações sobre o corpo, juntamente com a sexualidade, se tornam parte dos conteúdos das culturas infantis contemporâneas” e situa a centralidade da criança consumidora e da gama de produtos para ela dirigidos, “em contraste com a falta de espaços públicos de lazer e das cidades construídas segundo uma lógica que as oblitera”. O artigo conclui pela pertinência destes temas fazerem parte de uma cultura da escola, que incorpore nos seus conteúdos e práticas pedagógicas a reflexão sobre as mensagens impositivas dos media.
Teresa Paixão, que coordena o Gabinete de Programas Infantis da RTP2 e é autora de A Ilha das Cores, apresenta as características de programas educativos (exigências de tempo, custos financeiros e audiências) que condicionam a sua produção, e partilha momentos, incidentes e decisões que foram dando corpo a esta recente série destinada a crianças em idade pré-escolar. Na sequência de programas anteriores da RTP (Rua Sésamo, Jardim da Celeste) mas incorporando o espírito do tempo e as condições tecnológicas hoje existentes, Teresa Paixão mostra como foram desenhadas as personagens, para contrariar estereótipos, como ambientes e paisagens tiram partido dos recursos tecnológicos, como surge a música ou a captação de imagem real, como a imagem do genérico se inspirou nos desenhos de crianças e como estas vão exprimindo à sua maneira a sua vontade de participação. Este relato, vivido por dentro, revela a complexidade que é fazer o simples e acessível, e também respeito pelas crianças em idade pré-escolar como público de televisão, mais do que como mera audiência.
A encerrar este número temático, o texto de Catarina Tomás, do Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho, enfatiza as questões da cidadania à luz da Sociologia da Infância. A autora revê e discute paradigmas, imagens e concepções tradicionais de infância – a “cultura da sujeição” que perduram nas sociedades contemporâneas da globalização, apontando factores explicativos para a (ainda) invisibilidade social da infância em muitas matérias. A alternativa será uma “cultura da participação”, para a qual a autora propõe um projecto de cidadania na infância indissociável de uma aprendizagem onde intervenham as relações familiares, os grupos de pares, o âmbito público da escola, os meios de comunicação e as investigações científicas, etc., programa vasto que visa “educar na cidadania e não para a cidadania”.
Recensões sobre livros recentemente publicados, entre eles estudos sobre o jornalismo português, a sua história e o seu presente, completam este número da revista.

recebido da Direcção do CIMJ