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terça-feira, junho 12, 2007

PONTO FINAL Prevodorias do DN, ultima cronica (II)

Jose Carlos Abrantes
Provedor dos leitores do DN

Foi para mim uma grande distinção poder servir os leitores como provedor durante estes três anos. Completei cerca de 12 anos de DN, contando com períodos anteriores em que fui colaborador do jornal. Restam ainda algumas tarefas que continuarão esta ligação ao DN, nomeadamente a preparação de um livro a partir das crónicas como provedor. Tenho outro livro, em projecto, sobre longo período imediatamente anterior de estabilidade do DN. Por outro lado, em Outubro, será apresentada a tradução do livro Public Editor, de Dan Ockrent, primeiro provedor do The New York Times. Envolvi-me nesta edição planeada com o objectivo de assinalar os dez anos de provedor no Diário de Notícias, completados no fim de Janeiro. Dan Ockrent estará entre nós em Outubro.

O meu mandato como provedor do DN termina hoje, com esta crónica. Foi um imenso prazer e um enorme desafio manter três anos de reflexão sobre o DN e os media, em relação com os jornalistas e os leitores. Termino o mandato com a sensação de que o mandato do provedor poderia ser mais longo, como é o caso noutros jornais, sobretudo americanos. Estou também convicto de que o jornalismo de hoje é mais sério, mais profissional e mais informativo do que noutros tempos, tantas vezes divinizados.

Estamos a anos-luz dos tempos heróicos do jornalismo e da sua deontologia, em que os conflitos de interesse eram facilmente aceites. Cândido de Oliveira, treinador do Sporting entre 1946 e 1949, saía dos jogos para ir fechar A Bola (ver livro de Fernando Correia e Carla Baptista). Hoje, como já nos anos 60, ninguém aceitaria essa situação, leitores como jornalistas.

Os conflitos de interesses ainda existem, mas há alguns que foram definitivamente bem resolvidos, mantendo-se hoje outros mais "escondidos".

Este reconhecimento obriga-me, simultaneamente, a identificar derrapagens, por vezes espectaculares, do jornalismo actual.

Hoje há mais publicações e, sobretudo, mais informação nas publicações. Arriscaria dizer: melhor informação nas publicações. Se a qualidade do jornalismo é melhor, há ainda um facto novo. Os jornalistas não estão sós na produção de informação. O mundo dos blogues e novos utensílios da Rede aumentam a escolha e permitem a expressão livre dos cidadãos. É certo que os blogues não são jornalismo. Mas os cidadãos gostam cada vez mais de territórios de expressão. Alguns destes podem ser mais ágeis do que o jornalismo. Mesmo que não retirem leitores, são concorrentes na criação de informação por vezes sobre temas ou perspectivas que dificilmente serão adoptadas pelo jornalismo.

O que fica destes três anos? Fica a inscrição, citando José Gil. Fica o debate público sobre este jornal e sobre os media. Podem alguns jornalistas e jornais ter argumentos contra a presença dos provedores. Mas, como o The New York Times, apressar-se-ão a nomear um provedor se crise forte os atingir. O escrutínio é sempre incómodo. E a crítica pública do jornalismo é um enorme aborrecimento para alguns jornalistas, mas é também um ganho cívico inestimável. O DN mantém esse debate há dez anos. Temos razões para crer que vai continuar.

Saio no fim do contrato. Deixo o DN com a tristeza de perder o contacto com os leitores. Trata-se de um contrato tácito e irrepetível. Saio com a convicção de que o meu mandato teria sido diferente, não forçosamente melhor, se tivesse havido maior estabilidade nos directores. Nos três anos, de Maio de 2004 a Junho de 2007, vi sete nomes no cabeçalho da direcção do DN.

O DN parecia conquistado pela futebolização: treinador que não ganha, sai. Melhor, em certos casos, treinador que está, sai. Ora, dar a um director um período de três a cinco anos parece o mínimo para que um trabalho sério se afirme, se desenvolva e solidifique. Não foi o caso para os directores do DN nos últimos anos.|

Três anos para recordar

Só posso sentir um imenso privilégio por ter sido escolhido por Fernando Lima e continuado o meu mandato sob as direcções de Miguel Coutinho, António José Teixeira e João Marcelino. Também coabitei com os directores interinos José Manuel Barroso, João Morgado Fernandes e Miguel Gaspar.

A todos os que consultei e me deram as suas opiniões abalizadas o meu obrigado. Este foi um dos aspectos mais claramente gratificantes da minha actividade. De facto, os problemas levantados pelos leitores pertencem, aos mais variados domínios, ou com eles têm ligações. Sucederam-se questionamentos de notícias sobre a guerra do Iraque, sondagens, eleições, música, futebol, crime, ciência, História, política internacional e quantos mais assuntos. O provedor tem de se debruçar sobre assuntos muito diversos e especializados. Muitas vezes recorri a especialistas de mérito que deram novos dados e opiniões ou aconselhamento sobre os problemas.

Livros, sempre os livros

A discussão pública dos media e do jornalismo tem entradas variadas. No DN, existe há dez a coluna do provedor. O DN e outros jornais têm secções de media. O Clube do Jornalistas tem mantido com alguma regularidade um programa de televisão. As universidades têm cursos de jornalismo ou áreas afins. Os livros sobre jornalismo sucedem-se a um ritmo difícil de acompanhar. É preciso estar de mal com a vida ou ter dela uma concepção estranha para nos continuarmos a lamentar sobre estes domínios. Com esta referência a livros saídos há pouco quero homenagear os investigadores, jornalistas, editores, directores de colecção que a cada momento produzem novo conhecimento e o disponibilizam.

Na produção sobre os jornalistas destaco o livro de Sara Meireles Graça, jovem docente da Escola Superior de Educação de Coimbra, que passou pelo jornalismo. Os Jornalistas Portugueses: Dos Problemas da Inserção aos Dilemas Profissionais, obra de sua autoria, foi agora editada pela Minerva Coimbra.

Da editorial Caminho saiu um trabalho de Fernando Correia e de Carla Baptista, Jornalistas: Do Ofício à Profissão, Mudanças no Jornalismo Português (1956-1968), apresentado por Paquete de Oliveira e José Carlos de Vasconcelos na semana passada.

Assinalo ainda um livro publicado há mais tempo, Os jornalistas Portugueses 1933-1974: Uma Profissão em Construção, de Rosa Maria Sobreira, editado pela Livros Horizonte/CIMJ, em 2003. Com livros me despeço. Até sempre! |