PORTUGAL SERÁ� MELHOR

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  • - se for mandado para as urtigas o princí­pio, muito vulgarizado: Tudo pelos amigos, nada pelos inimigos. Aos outros aplica-se a lei. É mais simples e justo se a todos se aplicar a lei.

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terça-feira, junho 12, 2007

O DN QUE VIVI Provedorias no DN, ultima cronica (I)

José Carlos Abrantes
provedor dos leitores

O que está bem, valorizo. Nas crónicas anteriores, fiz as apreciações positivas que entendi serem justas, sem deixar no tinteiro críticas a quem as mereceu. Não tenho grupos a que deva obedecer, nem peias ideológicas que me cerceiem os juízos de valor. Não sou alinhado nem sigo indicações de aparelhos partidários. Fiz sempre juízos livres, segundo a minha consciência pessoal.

Centro de Documentação e Informação (CDI)

É um dos sectores mais eficientes, onde obtive sempre respostas rápidas e produtivas. O CDI tem um espólio que não tem paralelo no jornalismo português, pois cobre mais de 140 anos da vida social e política portuguesa. O DN ganharia em criar mais condições para rentabilizar os documentos que possui e dar maior visibilidade social ao seu património documental. (1)

Fecho da Edição

É uma editoria de grande importância no jornal. O provedor contou com uma excelente colaboração deste sector, que regularmente telefonava, na véspera da publicação dos artigos, a esclarecer pequenas dúvidas.

Hibridismo

O DN é feito actualmente numa matriz híbrida: procura satisfazer leitores mais exigentes e tenta abrir as suas páginas a novos leitores. Esta tendência não é nova, apenas se tornou mais nítida. Começou a desenhar-se nos anos 90, com Mário Bettencourt Resendes, e foi acentuada no início dos anos 2000, com o DN a resvalar para o sensacionalismo. Com recuos e avanços a procura de um modelo híbrido tem-se mantido activa.

No momento presente, a matéria informativa ganhou volume. Há esforços que já assinalei noutras crónicas e que são meritórios. O provedor não foi inundado de queixas por quebra de regras deontológicas. Quem faz o jornal sabe que o DN tem graus de exigência própria.

Mas outros elementos colidem com a procura dessa exigência. A titulação é mais agressiva e alguns assuntos mais populares são chamados mais amiúde. A barra cimeira que encabeça o DN é disso sintoma, tendo titulado este mês: "Carolina passa a filme" (sobre Carolina Salgado), "Ele será Pinto da Costa" (um filme), "A busca mais cara" (sobre Madeleine), "A testemunha-chave" (sobre o serial killer de Santa Comba) , "Guerra nos Advogados" (sobre as eleições na Ordem dos Advogados), "O que ele disse ao telefone" ( outra vez o serial killer), "Lopez em Lisboa" (sobre Jennifer Lopez)", "Suspeito espanhol" (novamente Madeleine), "Ofensas a padre" (sobre a directora da DREN), "Joana volta a tribunal" (crime sobre uma criança de Portimão). É certo que há outras notícias e destaques. Mas será que não há leitores entediados desta excessiva superficialidade e insistência?

Imagens

Noutra crónica, já expliquei como foi tensa, por vezes, a relação do provedor com o jornal por causa das ilustrações das crónicas. A tal ponto que estive para interromper o meu mandato, em Abril de 2005, pelas provocações que apareceram a ilustrar os meus artigos. O provedor tem a última palavra a dizer no texto, o que sempre aconteceu, e deveria ter essa última palavra nas imagens que ilustram as suas crónicas. Valeu-me um advogado sabedor das coisas da comunicação social: Francisco Teixeira da Mota. Sem ele, o meu mandato teria sido mais curto. Aliás, o provedor trabalhou sem contrato escrito, mas com cumprimento integral das cláusulas acordadas para anteriores provedores. Ou seja, o DN cumpriu escrupulosamente o que estava consuetudinariamente estatuído.

Leitores

Não houve assuntos-tabu. Os leitores questionaram o jornal sobre mais assuntos do que os que cabiam nas competências do provedor. Não me acantonaram na exclusiva posição de último defensor da pureza linguística, embora também o tenham exigido, por vezes. Os leitores ajudaram a questionar o modo de dar notícias em todos os sectores, obrigando a reflectir sobre a grande variedade dos problemas do jornalismo.

Algum correio dos leitores ficou sem resposta pública, mesmo pessoal. Ainda tentarei escrever a alguns leitores. A todos que questionaram, que me apoiaram, que de mim divergiram, o meu obrigado.

Literacia dos media

Julgo ter dado suficiente atenção à componente pedagógica do cargo de provedor. Escrevi várias crónicas sobre as imagens e outras ainda sobre o papel dos media na vida dos cidadãos. Não esqueci a blogosfera, em que estou muito envolvido. No entanto, neste domínio tenho a sensação de ter ficado aquém do que gostaria de ter feito.

Ainda tentei fazer crónicas mais participadas. Pensei que os leitores gostariam de saber como se constrói a agenda noticiosa do DN, como se faz o fecho do jornal. Cheguei a fazer um contacto com a Lusa para explicar aos leitores como funciona o jornalismo de agência. Pensei que seria possível reflectir sobre o papel dos editores envolvendo-os na reflexão, como aliás se fez no El País.

Estes são domínios em que os textos baseados na observação pessoal e na participação dos jornalistas teriam mais pertinência para os leitores.

Livro de estilo

Chamei a atenção, mais do que uma vez, para a falta que faz um livro de estilo aos jornalistas e leitores do DN. No n.º 8 do Estatuto do Provedor diz-se que "o Código Deontológico do Jornalista, o Estatuto Editorial e o Livro de Estilo do Diário de Notícias, do qual este estatuto constitui parte integrante, são referências obrigatórias do provedor dos leitores".

Esperemos que venha a ser elaborado em breve.

Opinião

Está muito em voga em Portugal uma tendência contestável, em que o DN não é excepção. Ocupa-se excessivo espaço de opinião com a opinião de jornalistas. Ressalvo que há comentadores de qualidade entre estes. Mas também é mais barato, por vezes. Compreendo também que haja necessidade de renovar os colunistas.

Em tempos mais recuados, nos anos 90, eu próprio fui forçado ao silêncio que me foi imposto, uma vez no DN e outra no Público, embora em condições muito diferentes.

Outros cronistas surgem, por vezes, com proveito para os jornais. Sabemos por um estudo de Rita Figueiras que os cronistas tendem a eternizar-se com manifesto afunilamento do leque de opiniões. O problema é que opiniões da sociedade civil como as de, por exemplo, Vicente Jorge Silva ou José Medeiros Ferreira, de Ruben de Carvalho ou de Marta Crawford, desapareceram e estão a ser substituídas pelas opiniões de jornalistas no activo.

Os jornalistas que fazem as notícias estão a assumir um protagonismo excessivo e a afastar opiniões qualificadas, pois o espaço no papel é restrito. Importa sublinhar que esta é uma tendência generalizada, na rádio, como na televisão e na imprensa escrita. Os jornalistas substituem cada vez mais especialistas conceituados que queimaram as sobrancelhas a estudar os problemas. Não é o recurso à opinião dos jornalistas que é o problema. O problema é que a discussão pública, por vezes, fica empobrecida porque os jornalistas afastam os não jornalistas dessa discussão.

(1) Agradeço a todos os trabalhadores do DN que, quase sem excepção, me trataram com cortesia e profissionalismo, em especial os jornalistas. No CDI, uma palavra especial para Cristina Cavaco. Para Artur Sardinha, que me recebeu os textos sem azedume e com benevolência, em pequenos e pontuais atrasos. Para a pessoa de João Galamba Pinto, editor do Fecho, envio os meus agradecimentos, extensivo a todos os seus colaboradores. A todos os trabalhadores do DN envio o meu reconhecimento. |