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domingo, outubro 15, 2006

A FÁBRICA DO OLHAR Excerto

In Sicard, Monique, A Fábrica do Olhar, Lisboa, Ediçoes 70, 2006
Capítulo IV A luneta astronómica Galileu 1610

Em Setembro daquele mesmo ano de 1610, Galileu observa, com a ajuda da luneta, as manchas solares e, depois, o estranho aspecto do planeta Saturno. É o primeiro a descrever as fases de Vénus, muito parecidas com as da Lua. Desta vez, não perde tempo na redacção. Desejando guardar parcialmente o segredo das suas observações e, ao mesmo tempo, marcando a sua primazia, publica rapidamente as suas conclusões na forma de anagramas. Luas de Júpiter, montanhas lunares, fases de Vénus, manchas solares, silhueta de Saturno: a avalanche de descobertas é impressionante. A notícia espalha-se com rapidez até às «regiões geladas de Moscóvia» .
As objecções depressa começam a chegar. Apresentam-se de várias formas. As primeiras incidem sobre a primazia da descoberta da luneta, conhecida nos Países Baixos antes de Galileu a utilizar. O embaixador do rei Henrique IV em Haia escrevera então que essas lunetas «permitem ver o relógio de Delft e as janelas da igreja de Leida, apesar de estas cidades estarem a hora e meia de distância de Haia [...], observar todas as coisas [...] e até as estrelas que normalmente não aparecem à nossa vista...».
Na Terra, a luneta dá acesso a objectos terrestres invisíveis ao olho, mas cuja existência é comprovável: incontestavelmente, este instrumento faz maravilhas. O ponto brilhante de uma estrela longínqua tem pouco que ver com um objecto terrestre: como dar crédito a um instrumento cujas aberrações ópticas e cromáticas dão uma imagem tão deformada desses pontos? Alguns detractores afirmam que só a observação natural é fiável; só o olho dá acesso à realidade do mundo. Galileu responde criticando a insuficiência da visão humana e a utopia da sua infalibilidade: «Pretenderemos ainda fazer dos nossos olhos a medida da expansão de todas as luzes, ainda que, quando as imagens dos objectos luminosos não nos são perceptíveis, devamos afirmar que a sua irradiação não nos chega? É possível que as águias e os linces vejam estrelas que, à nossa fraca vista, permanecem ocultas. » Como os animais são capazes de ver melhor do que o homem, não é ilógico pensar que o instrumento de óptica possa ver também aquilo que o homem não vê.
O que a luneta de Galileu atira então à cara dos seus detractores é a questão da realidade do mundo. Já não é possível recorrer aos debates acerca da existência de um mundo único, estável, que preexistiria a toda a observação, que seria independente de qualquer interpretação. A Terra é um astro e os astros são outras Terras. O universo já não é uma tela sobre a qual se projectam figuras geométricas. Os astrónomos já não se podem acantonar no resumo de uma geometria do céu ou na matemática: o mundo das estrelas está mais próximo de nós do que pensamos.
No entanto, Galileu não terá baseado a sua argumentação apenas nas observações do céu: a 24 de Maio de 1610 escreve a Matteo Carosio, dizendo-lhe que experimentou a luneta «cem mil vezes sobre cem mil estrelas e objectos diversos» . No dia 21 de Maio do ano seguinte, afirma: «[...] há dois anos que faço com o meu instrumento, ou antes com várias dezenas dos meus instrumentos, centenas ou milhares de experiências sobre centenas ou milhares de objectos próximos e distantes, grandes e pequenos, luminosos e escuros, e não percebo como é que alguém me pode achar tão ingénuo para me enganar nas minhas observações ». O instrumento técnico terá sido calibrado a partir de «milhares de observações de objectos terrestres ». Esta lógica da prova instituída pela comparação entre o objecto observado a olho nu e o objecto visto à luneta ter-se-ia apoiado em longas pesquisas realizadas a partir de experiências de percepção. Sobretudo, o invisível tornado manifesto inscreve-se num campo teórico elaborado: corrobora as bases das teorias copernicanas.
As objecções são redutoras. Para Cesare Cremonini, em Pádua, é impossível aprovar coisas das quais nada se conhece e que não foram vistas: «Penso [que Galileu] é o único a ter visto alguma coisa e, além disso, essas observações através das lunetas fazem-me dores de cabeça. Basta, já não quero ouvir falar mais disso.»
Acreditar naquilo que a luneta de Galileu mostra, acreditar nos seus desenhos, significa acreditar na exactidão daquilo que se vê graças a eles. Só a confiança na possibilidade lógica do universo a que ela dá origem permite acreditar na luneta.
Longe de serem uma mera descrição, as imagens são também o instrumento da adesão àquilo que é visto e compreendido. A Lua é uma outra Terra, a Terra é uma outra lua.