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sábado, outubro 28, 2006

A FÁBRICA DO OLHAR Excerto Capítulo X

Capa do Livro A Fábrica do Olhar
Capítulo X FARADIZAÇÃO Guillaume Duchenne de Boulogne, 1862


«Era um velho internado que sofria de anestesia da face, ou seja, cuja pele era insensível a qualquer estímulo doloroso; a electricidade podia, portanto, ser aplicada na pele deste infeliz, atravessá-la sem provocar reacções dolorosas e estimular os músculos subjacentes que tinham preservado perfeitamente a sua contractilidade, ou seja, que funcionavam como numa pessoa normal. Podia-se assim contrair um seu músculo isoladamente, provocar, por exemplo, a acção do grande zigomático e dar ao rosto a expressão do riso, sem que o sujeito tivesse qualquer ideia daquilo que a sua fisionomia então reflectia.» Como anexo à sua obra Mécanismes de la physionomie [Mecanismos da Fisionomia], o médico Guillaume Duchenne, conhecido por Duchenne de Boulogne, do nome da sua cidade natal , colocou a fotografia de um pobre homem de rosto enrugado, um pouco simples de espírito, internado no hospital da Salpêtrière e sapateiro de profissão. O homem apresenta uma expressão estranha, como que alucinada. A seu lado, o médico em pessoa aplica-lhe no rosto dois reóforos ligados a uma fonte de corrente de baixa intensidade. A contracção muscular provoca uma expressão fugaz, à qual a fotografia confere permanência.
A operação de captação da imagem é delicada. Depois de ter colocado o paciente em posição conveniente graças a um apoio de cabeça, Duchenne de Boulogne cuida das iluminações e da focagem. Entretanto, a chapa fotográfica é coberta de colódio e sensibilizada. Quando Duchenne de Boulogne actua sozinho, a focagem sobre a sua própria personagem é apurada. Quando tem o auxílio de um colaborador, confia-lhe esta última tarefa. No entanto, reserva para si a tiragem das fotografias, pois considera que, melhor do que um fotógrafo, pode ajuizar sobre uma forma ou uma expressão. As muitas outras fotografias em que a sua própria personagem aparece desfocada e desenquadrada denunciam a dificuldade de execução de um duplo protocolo electrofisiológico e fotográfico.
As experiências fotográficas de Guillaume Duchenne de Boulogne pretendem-se «científicas». Retiram explicitamente a sua legitimidade da História do Homem, de Buffon. Os rostos são quadros – «telas» – sobre os quais se pintam as mais secretas agitações: a sua alma é o pincel. Assim se traduzem tanto a delicadeza como a energia, as hesitações e as vontades indomáveis. A equação é simples. Cada movimento da alma exprime-se por uma forma do rosto; a cada forma corresponde um carácter. Para Duchenne de Boulogne, a escolha de um simples de espírito internado na Salpêtrière facilita as primeiras experiências: as emoções básicas ajudarão ao estabelecimento de conclusões claras."


In Monique Sicard, A Fábrica do Olhar, Lisboa, Edições 70, 2006.
Este é o primeiro livro da colecção A Construção do Olhar.