PORTUGAL SERÁ� MELHOR

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  • - se for mandado para as urtigas o princí­pio, muito vulgarizado: Tudo pelos amigos, nada pelos inimigos. Aos outros aplica-se a lei. É mais simples e justo se a todos se aplicar a lei.

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segunda-feira, setembro 18, 2006

O JORNALISMO E NÓS O Independente

No Abrupto, José Pacheco Pereira transcreveu o artigo publicado no Público de 14 de Setembro sobre O Independente. Trata-se de uma análise certeira do papel deste jornal.

Em que é que O Independente foi diferente? Que frutos deu o jornal? O que é que mudou? A voz do desejo diz, olhando para o presente, que "fundou a direita moderna", livre nos costumes e sem preconceitos ideológicos. A frase tem todas as ambiguidades, mas pode-se aceitar em parte, numa pequena parte. Não vale a pena concentrar o debate de forma estéril negando a pequena parte em que O Independente também deu esse fruto, mesmo aceitando com largueza de espírito que essa "direita" é aquilo que acha que é.

Vamos ao outro lado, ao fruto bem mais pesado e importante que nasceu do ventre do Independente, o reforço, a "modernização" se se quiser, do populismo usando novas formas mediáticas e instrumentos mais poderosos no plano social e cultural. Esse populismo realizou todas as amálgamas de todos os populismos, quer à "direita", quer à "esquerda", exprimindo um sentimento contra os "políticos", antiparlamentar e anti-sistémico, explorando a desconfiança face aos poderosos, descrevendo-os como corruptos, arranjistas, motivados apenas pelo interesse próprio, despejando sobre eles editoriais inflamados de agressividade moral e denunciando os "escândalos" uns atrás dos outros. Muita coisa que hoje faz o 24 Horas, com mais fundamento jornalístico mas menos legitimação "cultural", poderia ser colocada no Independente com os mesmos títulos e destaques, com o mesmo efeito político e a vantagem da novidade.

Este populismo anti-sistémico agradava a uma faixa muito vasta, que ia desde os saudosistas do salazarismo, para quem a política era a "porca da política", até aos reformados que jogavam dominó numa sede qualquer do PCP na Margem Sul e passavam o tempo a barafustar contra os poderosos e a escrever cartas para o Correio da Manhã. Agradava também, e muito, a uma pequena burguesia urbana que começava a fazer com o "cavaquismo" um upgrade das suas expectativas para padrões europeus e que nas repartições e escritórios se sentia mais solta e lúdica para achar graça a gozar com quem lhes dava o pão. Era uma forma pouco subtil de irem à mão dos chefes e de encontrar no jornal o espelho da inveja socializada que era, e é, o cerne da sua relação com a sociedade.

Por último, O Independente era também atractivo para os pequenos e médio intelectuais cínicos, então quase todos à esquerda, que estavam desiludidos da eficácia dos pilares jornalísticos do velho regime, O Jornal e o Expresso, que não tinham sido capazes de travar a maioria absoluta de Cavaco e queriam vingar-se da humilhação que era serem governados pelos "pessedês", essa gente provinciana e inculta que não lia jornais e parecia não precisar deles. Entre estes intelectuais, estavam muitos jornalistas, um grupo crucial na vida política dos dias de hoje, que passaram a admirar O Independente, em particular se nele não trabalhavam. Diante dos seus olhos cínicos passou invisível o projecto político de Paulo Portas, sem nunca o terem visto, o que mostra como o cinismo dos intelectuais é bem fácil de enganar.