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terça-feira, setembro 26, 2006

AS IMAGENS E NÓS A Fábrica do Olhar

"Leonardo critica os artistas, «demasiado numerosos», que não possuem os conhecimentos necessários à sua prática: «Para dispor correctamente os membros de um nu nas suas posições e gestos, o pintor deve conhecer a anatomia dos nervos, ossos, músculos, tendões, de modo a que, sabendo que nervo ou músculo determina este ou aquele movimento, mostre proeminentes e maiores apenas esses e não o resto da membratura, como fazem muitos pintores que, para darem ares de grandes desenhadores, representam nus tão lenhosos e pouco graciosos que, vendo-os, mais parecem um saco de nozes do que uma forma humana, ou mais um molho de rábanos do que músculos de um nu .» Porque «aqueles que gostam da prática sem possuírem a ciência, são como o piloto que embarca sem timão, sem bússola, e nunca sabe exactamente onde vai [...]». Deve-se manter o espírito alerta, aberto à criação de imagens: «Não imites certos pintores que [...] abandonam a sua obra e, para fazer exercício, vão passear, já que a lassidão do espírito lhes prejudica a visão ou a percepção de várias coisas. Muitas vezes, encontram amigos ou parentes que os saúdam e, embora os vejam e ouçam, reparam tanto neles como se fossem ar.»
Longe de ouvir a razão e os conselhos dos antigos que preconizam que o cientista deve debruçar-se apenas sobre objectos fixos e formas simples, da Vinci obedece em primeiro lugar à ordem do olhar, dedicando-se resolutamente aos contornos incertos. Os turbilhões indescritíveis não amedrontam o cientista nem o pintor. É como artista que se dedica à representação de uma tempestade: «Que o mar agitado e tempestuoso faça turbilhões, espumoso, entre a crista das suas vagas; e que o vento leve pelo ar tumultuoso as gotas de água mais subtis, como uma bruma espessa e envolvente. Representarás os navios com a vela rasgada, os farrapos abanando ao vento com os seus cordames partidos; mastros partidos caem no convés e o furor das ondas quebra o barco; alguns homens gritam, agarrados aos destroços. Mostrarás as nuvens empurradas por ventos impetuosos, lançadas contra os altos cumes das montanhas, ou retorcendo-se, formando turbilhões como a vaga que se abate sobre as rochas. O próprio ar será medonho, por causa das trevas sinistras feitas de poeiras, neblinas e nuvens espessas .»
As palavras de Leonardo são imagens. E as imagens do pintor valem palavras: «[...] tu, pintor, se não souberes executar as tuas figuras, serás como o orador que não sabe servir-se das suas palavras.»"
Capítulo I, Gravura
In Monique Sicard, A Fábrica do Olhar: Imagens de Ciência e Aparelhos de Visão, século XV-XX, Lisboa, Edições 70, 2006 (no prelo).