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terça-feira, setembro 19, 2006

AS IMAGENS E NÓS A Fábrica do Olhar

No dia 17 de Outubro será apresentado o livro A Fábrica do Olhar: Imagens de Ciência e Aparelhos de Visão, século XV-XX, da autoria de Monique Sicard. Por ser o primeiro livro da colecção das Edições 70 que vou dirigir e por manter com o livro uma relação de grande empatia, fiz o prefácio da obra, que aqui se divulga.

Prefácio


A Construção do Olhar é o nome da colecção que este livro inaugura. Com três títulos por ano, a colecção procurará dar seguimento à concepção que as imagens se completam com as palavras: para falar de uma imagem são precisas mil palavras, diz-se. Esta é a razão maior para a colecção: publicar palavras sobre as imagens, os olhares, os ecrãs, os modos de as fabricar, de as ler e usar. Palavras que possam ser contributos para construir o olhar, para nos revelar modos de ver. Palavras que se ambiciona nos ajudem a não perecer num tsunami de imagens: as imagens, sem palavras e sem outras formas de apropriação e expressão, podem ter efeitos devastadores.

Começamos com A Fábrica do Olhar, de Monique Sicard. Este livro foi editado na colecção Champ Médiologique, uma iniciativa da editora francesa Odile Jacob que agrupou trabalhos ligados à mediologia. Este conceito surgiu em 1979 no livro Le Pouvoir Intelectuel en France, de Regis Debray. Pretendeu incluir análises de todos os medium e procurou retirar o protagonismo excessivo aos media de actualidade. Simultaneamente introduziu uma perspectiva histórica de longo prazo na investigação de cada medium. Autores como Serge Tisseron, Daniel Bougnoux, Jacques Perriault, Bernard Stiegler, Catherine Bertho Lavenir, Pierre Levy, entre outros, além de Monique Sicard e Régis Debray alimentaram os 18 números da revista Cahiers de Médiologie e, a maior parte deles, publicaram na referida colecção. O espectáculo, os poderes do papel, a bicicleta, o automóvel, a transmissão, a estrada, o rosto foram alguns temas da revista publicada entre 1986 e 2004.

A escolha deste livro para abrir a colecção foi uma escolha convicta e rápida. Trata-se de uma obra que o leitor apreciará pois, sendo um livro erudito, não é um livro difícil . Trata de acontecimentos e pessoas quantas vezes próximos, mas mantém a distância que o conhecimento exige. Debruça-se sobre tempos idos, mas dá constantemente relevo à modernidade. Dá importância às técnicas que fabricam imagens sem esquecer a dimensão social que, em cada momento histórico, tais imagens assumem. É um livro que se passeia na história, mas mantém a presença dos questionamentos de hoje. Acumula detalhes, sem esquecer a compreensão geral. Mostra como certas imagens surgiram e esclarece os seus processos de fabrico e de difusão. Tanto interroga os sentidos físicos quanto equaciona epistemologias. Mostra como homens do renascimento, zoólogos, botânicos, artistas, médicos, astrónomos, fotógrafos, arqueólogos, políticos, realizadores, divulgadores da ciência, programadores de viagens no espaço, matemáticos e outros profissionais criaram imagens ou ajudaram na sua difusão. Nomes? Leonardo da Vinci, André Vesale, Albrecht Durer, Robert Hooke, Antoni Leeuwenhoek, Nièpce, Daguerre, Arago, Galileu, Eadweard Muybridge, Lineu, Carl Sagan, entre os mais conhecidos. Não é pois um livro fruto de afirmações esotéricas habituais nalguns especialistas deste domínio. É antes um livro sobre um largo espectro de saberes que se cruzaram nas imagens. Esta mestiçagem é seguramente uma mais valia, agrupando uns e outros à volta do estatuto das imagens. E é também uma mais valia para os utilizadores de imagens que somos: percebemos melhor como as imagens interagem com a nossa vida, seja no ecrã de televisão, na tela de cinema, na escavação do arqueólogo, na sala de exposições, mas também no acto médico ou nos manuais escolares dos nossos filhos. Enfim, passamos a olhar de outro modo o terreno simbólico que pisamos, de forma automática, em cada dia. É essa uma das funções do conhecimento e um acto que deriva, com naturalidade, da leitura deste livro.
Depois da leitura, capítulo a capítulo, fica também a certeza que as imagens, não têm sido um apêndice menor na revelação da complexidade das coisas. A imagem está no centro de algumas mudanças que alteraram o pensamento humano. Galileu, por exemplo, observou o céu, a lua e outros planetas com uma luneta que lhe permitiu chegar aonde o olho humano não alcançava. E teve que contar com a desconfiança de muitos, avessos a legitimarem um novo objecto que via longe. Galileu contestou-os, afirmando que calibrou o seu instrumento a partir de milhares de objectos terrestres e outros tantos celestes. E os efeitos desse novo olhar foram fulminantes: “As consequências simbólicas destes novos saberes são imensas e simples: a nossa posição no centro do universo desapareceu para sempre. É difícil imaginar as perturbações causadas por uma luneta óptica” (Sicard, p. 40).
Outro exemplo pode ser retirado da globalização do olhar, nos nosso dias. Esquecemos que, ainda no final do século XIX, na Europa como nos EUA, cientistas de renome defenderam a existência de vida em Marte. Sulcos observados na superfície do planeta foram interpretados como um sistema de canais que os “marcianos” teriam construído ou mesmo como uma rede da caminhos de ferro, à semelhança do que então ocorria na Terra. Só passaram 125 anos. No fim dos anos 70, um século depois, as sondas Viking observam de perto o planeta e em 1997 uma outra sonda espacial, a Pathfinder, coloca um robô em Marte . “Não se fabrica o mesmo planeta se virmos Marte a olho nu, se o observarmos com uma óptica medíocre ou se enviarmos um robô munido de sensores para percorrer a sua superfície. Os sistemas técnicos de observação, bem como os da produção de imagens que lhes estão associados, estruturam os saberes e dirigem os imaginários” (Sicard, p.158). Afinal as imagens de Marte confirmaram os avanços entretanto realizados pela astronomia, ciência de ver ao longe. E mostraram-nos que o planeta é uma superfície deserta e seca, um ambiente impossível de albergar vida humana. Para isto contribuíram os olhos artificiais do robô, pousados em lugares onde o olhar humano nunca testemunhou. Eis mais um aspecto sublinhado neste livro. A imagem distancia-se do olhar humano. Neste, como noutros exemplos, vemos cada vez mais, não o que os olhos humanos vêm, mas o que é fabricado nos computadores, ausente de quaisquer referências corpóreas directas, fenómeno confirmado por outros autores (ver nomeadamente Crary, p. 20).
Demasiados influenciados pelas imagens estandardizadas dos nosso televisores, deixamo-nos frequentemente cair na tentação de considerar as imagens como sendo o parente pobre da palavra. Não o são. As imagens são complexas pela sua estrutura, pelos dispositivos que as fabricam e distribuem, mas também pelas relações que estabelecemos por causa delas e com elas. Uma imagem pode ter a complexidade de ser descrita e interpretada por mil palavras, o que mostra aliás a forte interacção de ambos os campos.
É importante mostrar que o olhar tem sido fabricado ao longo dos séculos, que não tem sido igual no renascimento ou no século XIX, no início dos séculos XX ou XXI . E que os dispositivos técnicos têm sido decisivos no fabrico como na distribuição das imagens. E ainda realçar que não só a técnica conta pois também marcam os imaginários com que as fabricamos e as lemos.
Se o olhar é fabricado, teremos, por último, que retirar duas consequências. A primeira é que o olhar também pode e deve ser ensinado, levando os consumidores de imagens a melhor entender a sua génese, o seu fabrico, a sua distribuição e, sobretudo, a melhor entender a forte e constante relação que com elas estabelecemos momento a momento desde tempos já longínquos. E o que ensinar? Talvez seja prudente seguirmos a opinião de pessoas sábias: “ Não sei se é possível algo como um sistema coerente para ler as imagens, similar àquele que criamos para ler a escrita (um sistema implícito no código que estamos decifrando). Talvez, em contraste com um texto escrito no qual o significado dos signos deve ser estabelecido antes que possam ser gravados na argila, ou no papel, ou atrás de uma tela electrónica, o código que nos habilita a ler uma imagem, conquanto impregnado por nossos conhecimentos anteriores, é criado após a imagem se constituir – de um modo muito semelhante àquele com que criamos ou imaginamos significados para o mundo à nossa volta, construindo com audácia, a partir desses significados, um senso moral e ético, para vivermos (Manguela, pp 32/33).” Ou seja, será prudente fomentar práticas de leitura para que os olhares se invistam, minimizando conteúdos incertos. E, também, criar imagens, em todos os suportes, fazendo com que os públicos em formação tenham as “mãos na massa”, se possam exprimir. A segunda consequência relaciona-se com os lugares desse fabrico e consumo, que devem merecer a nossa melhor atenção. Os dispositivos pelos quais entramos em contacto com as imagens de televisão são diferentes daqueles que a indústria cinematográfica nos proporciona, por exemplo. Algumas convergências também têm nascido a partir de certos objectos técnicos como o DVD, que nos proporciona as séries televisivas, onde há obras de excepção, como os melhores cineastas. Mas há outro lugar pelo qual passa o fabrico e o consumo das imagens a ocupar progressivamente lugar de destaque nas reflexões sobre a imagem: o nosso corpo, lugar de mediação, de fabrico, de localização. “Aos olhos do antropólogo, o homem não aparece como o dono das suas imagens, mas – o que é completamente diferente – como o “lugar das imagens” que ocupam o corpo; ele é entregue às imagens que produz, ainda que não cesse de as querer dominar (Belting, p.18). ”
Este livro diz-nos ainda que as dimensões imprevistas sucedem-se quando o olhar, atento, funciona. Deixemos que aconteçam e vivamos a sua evolução. Como fizeram os fabricadores do olhar que Monique Sicard nos descreveu, interpretou e contextualizou.

José Carlos Abrantes

Lisboa, Agosto de 2006

Referências

BELTING, H., Pour une anthropologie des images, Paris, Gallimard, 2004 [2001].
CRARY, J., L’art de l’observateur: Vision et modernité au XIX ème siècle, Nîmes, Éditions Jacqueline Chambon, 1994.
DEBRAY, R., Cours de médiologie générale, Paris, Gallimard, 1991.
MANGUEL, A., Lendo Imagens, S. Paulo, Editora Schwarcz, 2003 [2000].